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Ivo Bernardo a medir temperaturas do solo numa área com anomalias geotérmicas.
Hoje o vento forte continuou. A ilha acordou coberta de neve, mas à medida que o dia foi passando, o céu foi-se descobrindo e a neve foi fundindo lentamente. Fomos trabalhar para a área da base argentina num interessante leque aluvial onde têm sido detectadas anomalias geotérmicas. O solo tem temperaturas em alguns locais próximas a 11ºC e, a apenas algumas centenas de metros, surge congelado. Interessa-nos conhecer melhor estas interacções entre permafrost e vulcanismo e, por isso, esta é uma das áreas que começámos a estudar com mais pormenor.

Enquanto o Gabriel procedia ao levantamento topográfico da área, eu e o Ivo fomos medindo sistematicamente as temperaturas do solo a 5, 50 e a 70 cm de profundidade. Foi um bom dia de trabalho. O dia anterior foi de vento e neve...o de hoje, só de vento, mas nunca me tinha acontecido levar com piroclastos na cara quando havia rajadas de vento forte. Os pedaços de rocha vulcânica, com quase 1 cm voavam a mais de 1 metro do solo e na parte alta da vertente, os sedimentos subiam de forma impressionante. 
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Curiosos tapetes enrolados de neve. O vento forte acumulou neve numa vertente declivosa e devido ao calor do solo, a neve facilmente se soltou descendo na vertente e enrolando-se pela acção do vento.
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Detalhe de um dos rolos de neve.
 
 
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Gabriel a fazer levantamento da topografia com GPS em Crater Lake
Base Antárctica Espanhola Gabriel de Castilla
12 de Janeiro de 2011

Hoje voltei a Crater Lake com o Gabriel para terminarmos o levantamento topográfico iniciado ontem. Faltava-nos fazer o levantamento de detalhe da área onde existe termocarso (subsidência do terreno devido à fusão do gelo do solo) e que pretendemos monitorizar para estudar a sua variação interanual. De manhã estava um vento muito forte de sudeste e um pouco depois de chegarmos ao sítio de estudo, começou a nevar. Não nevou muito, mas sim de forma constante durante as 7h que estivemos lá em cima. O vento forte varria quase toda a neve que caía no solo e pudemos sentir na pele um arzinho da verdadeira Antárctida. Quando o vento roda e vem do lado do continente antárctico, as temperaturas geralmente descem muito e as condições tornam-se mais duras. Ao final do dia, estamos exaustos, pois o trabalho no exterior nestas condições é muito mais cansativo do que num dia de sol, como o de ontem.

Ao fim do dia, já na base, aproveitei ainda para reunir com o Alberto Caselli, geólogo argentino que colabora no projecto, bem como com o Gabriel. Discutimos aspectos do vulcanismo da ilha e planeámos as actividades para os próximos dias e, em especial, para depois de dia 21 de Janeiro, data em que irei para a Ilha Livingston com o Jim e o Marc, ficando o Gabriel e o Ivo a desenvolver as restantes actividades do permantar.

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Eu (esquerda) e o Gabriel no final do dia de trabalho de campo em Crater Lake
 
 
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Gabriel Goyanes a fazer levantamento topográfico com GPS em Crater Lake
Base Antárctica Espanhola Gabriel de Castilla, Ilha Deception
11 de Janeiro de 2011

Passámos o dia a trabalhar no nosso sítio de monitorização do permafrost do Crater Lake. É um local fantástico, com uma vista incrível sobre a caldeira de Deception (Port Foster) e o Crater Lake. Com um dia de sol como o de hoje, mesmo com  temperaturas de cerca de 2ºC e um vento cortante, as condições são as ideais para o trabalho de campo.

Saímos de manhã para a área de estudo. Comecei o dia a trabalhar no levantamento da topografia com GPS com o Gabriel e da parte da tarde, juntei-me ao Jim e ao Marc que abriam um buraco no permafrost com uma perfuradora. O trabalho foi duro porque o solo congelado é muito difícil de perfurar, mas obtivemos resultados muito interessantes e ao longo de todo o dia fomos colocando e refutando hipóteses acerca da origem de uns alinhamentos que tinhamos decidido investigar melhor nos dias anteriores. Perfurámos até cerca do 80 cm e houve momentos de verdadeiro entusiasmo, à medida que iamos descobrindo algumas características peculiares do solo, que ainda não conheciamos daquele local.

Voltámos à base às 19h00. Ao largo da base estava o navio argentino Aviso Castillo e o comandante e 6 tripulantes vieram visitar a base e foram convidados para jantar. Entretanto, antes de jantar estive de serviço no radio, pois foi necessário contactar um outro navio que tinha acabado de entrar na caldeira, o Almirante Maximiliano, do Brasil e eu servi de ligação.

Amanhã esperamos voltar a atacar o Crater Lake para acabar o levantamento topográfico de detalhe. Interessa-nos, especialmente, compreender o modo como as alterações climáticas afectam o permafrost e a estabilidade dos terrenos. Por isso, todos os anos fazemos um mapa detalhado do relevo, que vamos comparando, de modo a identificarmos processos ligados à erosão dos solos, associado à degradação do permafrost.

 
 
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Equipa PERMANTAR-2 em Crater Lake a abrir buraco no permafrost.
Ilha Deception, Base Antárctica Espanhola Gabriel de Castilla
10 de Janeiro de 2011

Mais um dia na ilha Deception. Como sempre, o despertar é às 7h30 ao som da musica escolhida pelos "marias", nome dado a quem está de serviço na base durante o dia. É um serviço rotativo, que começa bem cedo, pelas 7h00, para preparar o pequeno-almoço. Segue-se a limpeza de toda a base, ajudar no almoço e, mais tarde, no jantar. Os "marias" só têm descanso mesmo, pelas 11h00 da noite, depois de toda a base estar pronta para o dia seguinte. Neste momento estamos 21 pessoas na base, pelo que a cada período de cerca de 10 dias, lá teremos que ficar de serviço, em conjunto com um colega. Eu e o Jim ficaremos, mais uma vez, no próximo dia 14. Digamos, que a vontade é pouca...além de que esse será um dia de trabalho perdido.

Hoje foram-se embora dois colegas que estavam desde o início da campanha, bem como um azarado grupo de chilenos que só cá esteve 2 dias, apesar de o período planeado ter sido de 10 dias. Atrasos sucessivos no voo Punta Arenas - Ilha King George devido ao mau tempo (o mesmo voo que esperámos no dia 30/12) fizeram com que a campanha se tivesse encurtado de forma drástica. Na Antárctica o estado do tempo manda.

Ontem à noite fez-se uma festa de despedida aos companheiros antárcticos, que se prolongou com emoção e karaoke pela noite dentro.

Os trabalhos de hoje de manhã centraram-se no transporte de cerca de 500kg de equipamento para a área de Crater Lake, local onde vamos instalar um gerador eólico para alimentar os instrumentos de monitorização. Aproveitei ainda para testar o DGPS, enquanto o Jim e o Marc abriram alguns buracos para estudar as características do solos. Pela tarde, subimos a Crater Lake e começámos a abrir o buraco para o gerador usando um martelo percursor. O objectivo era também estudar as características do solo gelado e o modo como o gelo nele se distribui. Foi com entusiasmo que conseguimos perfurar cerca de 20 cm de solo congelado... até que o gerador avariou... Debaixo de alguma neve, trazida por um vento de sudeste, regressámos à base ao final da tarde, discutindo os resultados do dia.
 
 
Ilha Deception, Base Antárctica Espanhola Gabriel de Castilla
09 de Janeiro de 2011

Estou na ilha Deception desde 31 de Dezembro. O tempo até agora foi passado em actividade frenética, de maneira a conseguirmos levar a cabo todas as tarefas planeadas para esta campanha. Na Base Antárctica Espanhol Gabriel de Castilla estou eu e o James Bockheim, da Universidade de Wisconsin-Madison. Na Base Argentina Decepción, localizada cerca de 2 km para
norte, estão o Marc Oliva, o Ivo Bernardo, o Gabriel Goyanes, o Alberto Caselli e o Horácio Tassone, todos membros do projecto PERMANTAR-2. Infelizmente, devido ao ritmo das actividades e ao facto de ter tido necessidade de enviar alguns trabalhos pendentes para Portugal, que fui terminando nos escassos tempos livres, não consegui actualizar devidamente este diário. A partir de hoje, a actualização será diária e explicarei o tipo e objectivos das actividades em curso.

Nesta fase inicial os trabalhos do projecto, que opto por ilustrar com uma fotografia representativa de cada dia, têm sido os seguintes:

- Reconhecimento geomorfológico de áreas da ilha que ainda não conheciamos, com o objectivo de identificar aspectos particulares da dinâmica geomorfológica actual, bem como novos locais de estudo e de amostragem de solos;
- Substituição de sensores de temperaturas do solo, ar e neve;
- Monitorização usando estação total de processos erosivos actuais;
- Caracterização e amostragem de solos.

Para além dos trabalhos diários, que têm sido muito intensivos, têm havido várias festas, pois apanhámos aqui a Passagem de Ano e o Dia de Reis, muito celebrado em Espanha. Têm sido momentos muito divertidos e que serviram também para aproximar os membros da campanha e, também das duas bases. No dia de Reis, fomos todos à base Argentina para um monumental assado e para uma futebolada, que a Argentina ganhou. O Ivo defendeu as balizas argentinas e é já considerado herói da base... nesse dia, estava de serviço de limpeza na base espanhola com o Jim e só pude jogar os últimos 3 minutos...o que foi uma sorte para a Argentina, caso contrário, teríamos certamente ganho :)

A partir de amanhã, começarei a explicar com mais pormenor as actividades e o ritmo diário da vida na base.

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Monitorização dos movimentos de terreno em Crater Lake.
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Estudo da erosão das plataformas rochosas usando o dispositivo TMEM
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A caldeira da ilha Deception num dos raros momentos de sol
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Eu e o Jim a hastear as bandeiras de Portugal e dos Estados Unidos com os militares e investigadores que estão na base.
 
 
30 de Dezembro de 2010, 09h44

Estamos ancorados ao largo da ilha de King George, junto à Península Fildes, já nas ilhas Shetlands do Sul. Os mil quilómetros que nos separam da América do Sul correram na perfeição. As ondas foram relativamente pequenas para a Passagem de Drake. Cerca de 5 metros no primeiro dia, e 3 metros durante o dia de ontem. Apesar disso, fiquei surpreendido com o modo como o navio abana, mesmo com tão fraca ondulação. Uma parte significativa dos investigadores a bordo passou a maior parte do tempo na cama, por causa do enjoo. É uma situação que sucede sempre. No fim da travessia, começa a reunir-se toda a gente na sala do navio e percebemos que afinal somos bastante mais do que pensavamos...cerca de 16 investigadores a bordo.

Aproveitei o tempo a bordo para trabalhar no computador e para pôr o sono em dia. Reunimos também a equipa de investigação e estivemos a planear as actividades dos próximos dias, mas também a estudar fotografias de possíveis sítio para fazer as perfurações na próxima campanha. Isto, porque em Fevereiro de 2012, iremos participar na campanha norte-americana e com eles, perfurar na área da Base Pa1mer e num outro local da Península Antárctica ainda por definir.

A razão pela qual estamos ancorados, é porque se espera a chegada de um voo ao aerodromo de Frei com investigadores chilenos que deverão depois embarcar no nosso navio. Em princípio o avião deverá chegar ao final da manhã, vindo de Punta Arenas, no Chile, mas ainda não é certo que isso venha a acontecer. O tempo está com bastante nebulosidade e o voo, que devia ter chegado ontem, mas que foi adiado, pode sofrer o mesmo problema.

Em princípio, esta tarde desembarcaremos cientistas e equipamento na ilha Livingston e depois iremos para Deception, onde deveremos desembarcar hoje à noite ou amanhã de manhã.
 
 
28 de Janeiro de 2010
Passagem de Drake

Escrevo a bordo do navio espanhol "Las Palmas". Estamos na Passagem de Drake, a caminho da Antárctida. O mar está calmo, com ondas de cerca de 4 a 5 metros, mas que chegam para que o navio balance de modo muito notório, pois está a receber as ondas de lado. Entrámos no Drake por volta das 2h da manhã, depois de termos cruzado o calmo canal Beagle. Foi nessa altura que os balanços começaram no camarote, mas nada que se compare com as ondas de 12 metros que aqui apanhei em 2000. De qualquer modo, agora mesmo, tive que interromper a escrita, porque o meu café se entornou na mesa...a segunda vez que me acontece hoje. A primeira foi na cozinha.

Até agora a viagem correu na perfeição. Nenhum dos voos que apanhei até Ushuaia se atrasou. A viagem de 24h foi longa, mas ainda não chegou a meio. Temos 3 a 4 dias de barco pela frente. Depois do Rio de Janeiro voei para o calor de Buenos Aires e daí para Ushuaia, passando pela desolação da pampa patagónica, bem visível na escala que fizemos em Trelew. Ao fim do dia 26, já em Ushuaia, encontrei-me com o meu colega Jim Bockheim, da Universidade de Madison-Wisconsin, um dos principais especialistas em criosolos e com 41 anos de experiência antárctica. É o participante norte-americano no projecto PERMANTAR-2, que ficará comigo durante o próximo mês. Ao jantar, encontrá-mo-nos com os espanhóis Miguel Angel de Pablo e António Molina com quem colaboramos desde há vários anos e que integram o projecto PERMAPLANET, financiado por Espanha e com actividades de colaboração com o PERMANTAR-2.

A partida de Ushuaia estava marcada para as 18h do dia 27/12, com embarque até às 16h. A manhã foi passada a tratar de alguns procedimentos alfandegários e a fazer compras de última hora, até que embarcámos e zarpámos à hora marcada.

Agora, em pleno Drake, há que lutar contra o enjoo, esperar e tentar aproveitar para pôr algum do trabalho atrasado em dia.
 
 
26 de Dezembro de 2010
Rio de Janeiro, 09:25

Começou ontem à noite mais uma campanha antárctica. A minha 4ª, desde que comecei a trabalhar na região em 1999-2000. Dia de Natal semi-arruinado e partida de Lisboa às 23:35 num voo TAP para o Rio de Janeiro, onde me encontro. Estou à espera de um voo de ligação para Buenos Aires, onde de seguida embarcarei num outro voo para Ushuaia, a cidade mais austral do Globo. Aí, se tudo correr bem, amanhã, embarcarei no navio espanhol "Las Palmas" que nos levará às ilhas Shetland do Sul onde desenvolveremos os trabalhos de campo. O desembarque na Antárctida está previsto para 31 de Dezembro na ilha Deception.

Até agora, tudo está a correr bem. Consegui organizar o mínimo indispensável de bagagem e trago apenas bagagem de mão. Uma velha mochila Berghaus de 45l, uma pequena mala para o computador e um casaco polar e um impermeável com os bolsos completamente atafulhados de material. Oculos escuros, binóculos, estojos com líquidos, máquina fotográfica, ipod, conectores para diferentes instrumentos, uma consola DGPS. Tento levar tudo comigo porque com as curtas ligações entre voos, correria o risco de perder a bagagem se fosse enviada no porão. Uma péssima experiência na campanha de 2008-09 em que perdi toda a bagagem durante 3 dias levou-me a tomar esta decisão. Nesse ano fiquei com toda a roupa da campanha em duplicado e passei dois dias em Punta Arenas a comprar roupa para não correr o risco de passar a campanha...não sei bem como. A mala acabou por chegar à noite, na véspera da partida. Somando a isso, as 56h de viagem entre Lisboa e Punta Arenas devido a uma greve na Iberia e a uma sucessão de voos atrasados, foi um início verdadeiramente azarado.

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Paragem 1 - Rio de Janeiro
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Selva urbana - Buenos Aires
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Trelew - Patagónia Argentina
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Cordilheira Darwin à chegada a Ushuaia
 
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    Gonçalo Vieira é coordenador do Grupo de Investigação em Ambientes Antárcticos do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG/IGOT-UL) e relatará neste blogue a sua experiência como responsável pela campanha PERMANTAR-2. Este projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tem permitido a Portugal manter actividades regulares na região da Península Antárctica e a consolidar o seu papel internacional no estudo do solo permanentemente gelado (permafrost) e das consequências das alterações climáticas sobre ele.

    O PERMANTAR-2 é um projecto português que envolve parcerias com a Argentina, Brasil, Bulgária, Espanha e Estados Unidos da América.
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